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Festas juninas tradicionais persistem nos bairros mais populares de BH

Escolas e comunidades estimulam a tradição junina para promover cultura e cidadania. Arraial de Belô resgata as quadrilhas.

Por Lívia Furtado

O Arraial de Belô é um pedacinho da tradição junina na terceira maior capital do País. Enquanto a maioria dos clubes e casas noturnas da cidade realizam “festas juninas” que se transformaram em shows, com direito a bandas famosas, DJs e ar condicionado, o Arraial tenta resgatar o que há de mais tradicional nessa época do ano: a quadrilha. De 07 a 10 de julho, na Praça da Estação, ocorreram a fase final do concurso municipal e o 1º Concurso Nacional de Quadrilhas.

A 27ª edição do Arraial de Belô contou com a participação de 49 agremiações juninas da capital. Dessas, dezoito foram selecionadas para a final do concurso municipal, que aconteceu nos dias 07 e 08. O grupo vencedor foi o Núcleo Mineiro de Cultura Feijão Queimado, da Regional Pampulha, uma das mais premiadas quadrilhas de Belo Horizonte. Em segundo lugar ficou o Grêmio Recreativo Cultural São Gererê (Regional Leste).

As duas campeãs concorreram no 1º Concurso Nacional de Quadrilhas, nos dias 09 e 10. Participaram grupos de São Paulo, Paraíba, Sergipe, Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Distrito Federal e Mato Grosso. O vencedor nacional foi o Grêmio Recreativo e Cultural Cangaceiros da Boa, de Sergipe.

Tradição junina nos bairros

Cada região de BH tem sua agremiação junina. Elas são um costume principalmente na periferia ou nos bairros mais antigos. O Feijão Queimado, vencedor deste ano, foi fundado em 1980 por iniciativa de moradores da Urca, na Pampulha. Ali a tradição das quadrilhas é forte. A região abriga também os grupos Chapéu de Palha, Fubá Suado, Capão da Mandioca, Pé de Cana, Xique-Xique, entre outros.

O Feijão Queimado é uma das mais tradicionais agremiações juninas da cidade e já venceu seis vezes o concurso municipal do Arraial de Belô. Boa parte da população do bairro acompanhou e ajudou o grupo a crescer. No início, as apresentações aconteciam nas ruas do bairro. Em entrevista à revista Outro Sentido, Lúcia Coelho, uma das fundadoras do Feijão Queimado, conta como surgiu esse nome: no momento em que ia fazer a inscrição do grupo num concurso de quadrilha, sua amiga Raimunda sentiu o cheiro de feijão queimado, vindo de uma cozinha ali perto, e o nome ficou.

No Feijão Queimado, as roupas remendadas deram lugar a um figurino sofisticado. As mulheres usam vestidos bem rodados e coloridos, cheios de saias e babados, e os homens usam terno e gravata. O responsável por essa mudança é o irmão de Lúcia, Carlos Alberto Coelho, que faz às vezes de coreógrafo e figurinista do grupo. Para ele, é errado essa concepção do caipira maltrapilho. “Quando iam dançar quadrilha, eles tiravam a melhor roupa que tinham no armário para poder ir à festa”, ele explica.

A chegada das festas juninas muda a rotina dos bairros e deixa a população ansiosa. A partir de abril, os grupos intensificam os ensaios e as costureiras trabalham dia e noite para confeccionar tantos vestidos.

Outros grupos tradicionais de BH são o Arraiá do Cambuquira e o Arraiá do Sem Nome, ambos de 1979, o Arraiá de São Domingos, de 1982 (vencedor do Arraial de Belô 2004) e o Grêmio Recreativo Capão da Mandioca, de 1983. As agremiações mais antigas são de 1978: o Arraiá do Sabuco Duro, da Barragem Santa Lúcia, e o Arraiá do Brejo Grande, do Caiçara. Várias quadrilhas surgiram na década de 90 ou mais recentemente no Barreiro, em Venda Nova e na região Norte, todas ligadas à assistência social e à promoção da cultura e da cidadania nas comunidades mais pobres.

Junina ou joanina?

Em todo o Brasil, as noites de inverno são animadas pelas festas juninas e “julinas”. Nem bem começa o inverno e as pessoas já se deliciam imaginando os quitutes típicos dessa estação: caldos, canjica, quentão, milho verde, cocada, pé-de-moleque, doce-de-leite... As tradições juninas revelam uma grande riqueza cultural, adquirida através da assimilação de costumes de outros povos. As principais práticas encontram origem nos costumes gregos e no início da Era Cristã.

Segundo os historiadores, as comemorações nos meses de junho e julho já aconteciam entre os gregos e romanos. Como forma de agradecer os deuses pela colheita, eles dançavam, cantavam e acendiam altas fogueiras. Esse costume se espalhou pela Europa e os cristãos deram a ele um caráter religioso. Segundo os católicos, Isabel, quando deu a luz a João Batista, acendeu uma fogueira para avisar sua prima e amiga Maria, mãe de Jesus.

Por causa da ligação com São João, a festa recebia o nome de festa “joanina”. E o dia de São João (24 de junho) é de fato o mais animado, porque esse é um santo festeiro e nada ranzinza. Porém, outros dois santos também são homenageados: no dia 13, Santo Antônio, o famoso “santo casamenteiro”, e no dia 29, São Pedro, encerrando o ciclo de festividades.

A devoção a esses três santos católicos é o que molda boa parte dos costumes “juninos”. A fogueira triangular é de São Pedro e a festa, no seu dia, é organizada pelas viúvas, suas protegidas. Já as fogueiras de São João têm a forma cônica. Por causa dele existem o mastro, os fogos de artifício, as bombinhas tão apreciadas pelas crianças, a lavagem do santo e o bolo de São João. Reza a lenda que os fogos são para acordar São João, que está dormindo para não sofrer a tentação de ver as belíssimas fogueiras festivas e descer à Terra. A tradição determina também que nunca se pode queimar madeiras do cedro, da imbaúba ou da videira, por causa das passagens bíblicas relacionadas a Jesus. Os balões são lançados como pedidos ao santo homenageado.

Com características variando de região para região, principalmente no meio rural, as fogueiras e o sentido religioso da festa persistem.


Mistura e brincadeira

No Brasil, a quadrilha era uma dança praticada nos salões da nobreza, no século XIX. Depois, a quadrilha e a festa junina caíram no gosto popular e receberam influências da cultura indígena e negra. Foram introduzidos tambores, triângulo, zabumba, forró e bumba-meu-boi. Na culinária, o aipim (mandioca), o milho, o jenipapo, o leite de côco, o café e o amendoim (o grande sucesso da festa). Conservaram-se até passos originados das danças francesas, como o “anarriê” e o “anavantur”. A dança de fita, mais comum no Sul do Brasil, veio de Portugal e Espanha. Em Belo Horizonte, a agremiação Arraial do Kossaco representa bem essa miscigenação, ao trabalhar com o resgate de outras manifestações folclóricas nacionais, como o congado e o maracatu.

Para as crianças, a maior diversão das festas juninas está nas barraquinhas de prendas, com pescaria, argola, tiro ao alvo e boca do palhaço. Na capital, as escolas são os redutos onde se procura preservar as características tradicionais dessas festas. Os próprios professores ensaiam os alunos, organizam as barraquinhas de comidas típicas e de brincadeiras. Nas casas, as mães reformam ou preparam os coloridos vestidos para as meninas. Os meninos ganham blusas xadrez, remendos nas calças, bigodinhos e chapéus.

Para os que têm a oportunidade de participar de uma típica festa junina, fica a vontade de chegar junho de novo, com gostinho de canjica, brincadeiras em volta de fogueira e noites de muito arrasta-pé para afastar o frio.


13/07/2005

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