Miguilins: muita estória para contar
Por Carlos Jáuregui e Flávia Ayer
Miguilim, personagem de Guimarães Rosa, transpôs as barreiras
da ficção e ganhou as ruas da pequena Cordisburgo, terra natal
do escritor. Em 1995, foi fundado o Grupo de Contadores de Estórias
Miguilim, que narra contos da obra de Guimarães Rosa. “O nosso
objetivo é facilitar Guimarães Rosa, é mostrar para
as pessoas que ele pode ser lido”, afirma Fábio Barbosa, de
25 anos, integrante da primeira turma de Miguilins.
Atualmente, o Grupo possui cerca de 40 integrantes, entre 11 e 25 anos.
A preparação para contar estórias inclui o estudo da
biografia e obra de Guimarães Rosa, a aprendizagem da técnica
de “contação” de estórias, além
de regras de comportamento.
A fundadora do Grupo Miguilim, Calina Guimarães, prima de Guimarães
Rosa, afirma que “o trabalho com a contação de estórias
dá aos Miguilins muita firmeza e responsabilidade na profissão.
Eles se dedicam mesmo”. Calina completa: ”sem eles eu não
vivo não”, emocionada após mais uma apresentação
do Grupo, durante a Semana Roseana, que aconteceu de 4 a 10 de julho, em
Cordisburgo.
Na Semana Roseana, os Miguilins fizeram uma apresentação inédita,
encenando o drama de Riobaldo e Diadorim, do livro Grande Sertão
Veredas. O Grupo possui um repertório bem amplo, que a inclui
a narração de trechos dos livros Sagarana, Magma,
dentre outros. A coordenadora dos Miguilins, Dora Guimarães, explica
que são feitos “recortes da obra, de forma a construir uma
linearidade, para que o público entenda”.
O Grupo se apresenta em eventos culturais e artísticos, universidades,
escolas, teatros, residências. Além disso, eles narram estórias
na Caminhada Eco-literária, que acontece no sábado da Semana
Roseana. “Antes dos Miguilins, os moradores da cidade nem conheciam
a obra de Guimarães Rosa. O Museu era desconhecido. A Semana Roseana
era mais acadêmica e, não popular, como ela é hoje”,
afirma a contadora de estórias Daiana Silva.
Guardiões do Museu
Além de participar das caminhadas, os Miguilins podem ser encontrados
no Museu Casa Guimarães Rosa. Durante todo o ano, além de
narrar a obra do escritor, os contadores de estória guiam os visitantes
pelo museu que funciona na casa onde o Guimarães Rosa viveu até
os nove anos de idade.
De acordo com o secretário de Educação e Cultura de
Cordisburgo, Ronaldo Alves de Oliveira, os contadores de estória
são o grande diferencial do museu. “Não são apenas
livros e coisas. Os Miguilins dão vida ao museu. Você ouve
a estória que foi escrita naquela máquina”.
O museu existe desde 1974 e já passou por um processo de restauração
em 1994. Ele conta hoje com cerca de 300 objetos e 2 mil documentos. No
acervo estão desde anotações, originais de livros e
pertences pessoais do escritor como uma coleção de gravatas
borboleta, correspondências e máquinas de escrever.
Em 1995, foi criada a Associação Amigos do Museu Casa Guimarães
Rosa (AAMCGR) para colaborar com a manutenção do museu. A
associação também é responsável pela
organização da Semana Roseana e pelo Grupo de Contadores de
Estória Miguilim.
Mais informações sobre o museu e agendamento de visitas,
no telefone: (31) 3715 1425

