Transposição de água do São Francisco
FATOS A CONSIDERAR
(Perguntas e Respostas)
Alberto Daker – Novembro 2004
1 – SOBRE O NE SETENTRIONAL E AS OBRAS DO PODER PÚBLICO
1-P - COMO SE PODE TER ÁGUA EM CONDIÇÕES TÃO ADVERSAS COMO NO SERTÃO NORDESTINO?
2 R –Realmente , na região semi-árida do NE a água é escassa, porém, se bem aproveitada dá resultados magníficos, como acontece em regiões congêneres, em várias partes do mundo. Fora a água subterrânea, não se pode descartar a precipitação média anual de 500 mm, que ocorre em toda a região. Isso significa que em cada 1m² cai 500 litros e cada 1 km² 500 milhões de litros ou 500 000 m³ por ano. Só no estado do Ceará (148 000 km²) caem 74 bilhões de m³ por ano e nos 04 estados da região (357 000 km²), 178 bilhões.
Observa-se que todo esse volume cai do céu (chuvas) de graça, por gravidade, enche e é retirada dos açudes também de graça, por gravidade para felicidade da região e tristeza dos que só querem e só pensam em obras.
2-P – O QUE FEZ O PODER PÚBLICO PARA O NE?
2-R-Pequenas intervenções até a criação em 1909, de um órgão permanente de combate ás secas, denominado Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS) e, hoje, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS).
3-P - COMO FOI A ATUAÇÃO DESTE ORGÃO?
3R – Deu prioridade a obras, em detrimento ao aproveitamento dessas obras para a melhoria de vida do sofrido sertanejo e o desenvolvimento da região.
3P - COMO ASSIM?
3R – Desde que foi criado, a prioridade era gastar em obras. Foram construídos mais de 70.000 açudes particulares de pequeno porte e mais de 400 públicos de médio e grande porte, totalizando o armazenamento de um fantástico volume de 37 bilhões de metros cúbicos, superior às barragens de Três Marias (21 bilhões) e de Sobradinho (uma das maiores do mundo, com 34 bilhões de m³ de capacidade).
4P – QUAL A ARÉA QUE PODE IRRIGAR TAL VOLUME?
4R - Segundo dados do próprio DNCOS, SUDENE e de técnicos locais, devido a atual precária utilização, considera-se que somente 25% desse volume sejam aproveitáveis, perdendo-se o restante 75% por evaporação.
Mesmo assim os 25% dos 37 bilhões de m³ armazenados dão um volume aproveitável anual de 9,25 bilhões de m³. Na base de 12000 m³ por hectare e por ano, tal volume pode irrigar uma área de 770 000 há e na base de 70 m³ por habitante por ano (cerca de 200 litros por dia), da para o abastecimento doméstico de 130 milhões de pessoas. Tudo isso sem contar com o aproveitamento da água subterrânea, que em certos locais é abundante.
5P – IRRIGA-SE ESSA ÁREA, NO MOMENTO?
5R – Desgraçadamente, não. Hoje, após quase 100 anos de criação do DNOCS, irriga-se, e de uma maneira precária, com paternalismo e baixa produção, somente 120 000 ha.
Se a irrigação tivesse tido a mesma prioridade das obras, hoje teríamos filhos, netos, bisnetos, etc. dos primeiros colonos, aptos e treinados para a produção agrícola, e gozando de plena cidadania.
6P – QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS DESSE DISPARATE?
6R – Desastrosas. Caso as obras, isto é, os açudes fossem feitos para sua finalidade precípua (abastecimento e irrigação) o NE setentrional seria outro hoje. Seriam 770 000 há irrigados, com toda a produção agrícola gerando emprego e riqueza. Na base de 1 lote de 5 há por família , seriam 154000 famílias assentadas, ou uma população (5 pessoas por família ) de 770 000 habitantes, vivendo diretamente da irrigação, fora os empregos indiretos e a riqueza que a produção oferece.Assim o NE setentrional superaria o Chile(180 000 ha irrigados) e Israel( 280 000 ha ), tornando quase uma Califórnia brasileira.
7P – O QUE SE DEVE FAZER AGORA?
7R – Recuperar o tempo perdido ou, pode-se dizer, o crime cometido. Deve-se em primeiro lugar, como salientam os técnicos locais, aproveitar ao máximo, os conhecimentos já adquiridos na agricultura e no gerenciamento dos projetos, melhorar a irrigação existente e implantar os novos projetos com tecnologia avançada e, principalmente, com treinamento dedicação e atenção ao principal agente do desenvolvimento, o sofrido sertanejo local.
8P – O QUE A TRANSPOSIÇÃO DESEJA FAZER?
8R - Exatamente o contrário da resposta anterior. Deseja continuar e ampliar as obras, com gastos mirabolantes e resultados duvidosos, aumentando e garantindo, por décadas e décadas a seguir, um fabuloso lucro para uns poucos, com grande prejuízo para toda a população.
A transposição vai levar mais água aos açudes (mais lenha na fogueira), para aumentar seu volume e suas perdas por evaporação. Não vai milagrosamente aspergir sobre toda a região, fazendo correr água nas torneiras e não vai se espalhar ou implantar novos projetos de irrigação.
2 – SOBRE AS CONTRADIÇOES, FANTASIAS E MILAGRES APREGOADOS PELOS DEFENSORES DO FARAÔNICO PROJETO
1P - OS PROJETITAS DE 1982 PREVIAM UMA VAZÃO DE TRANSPOSIÇÃO DE 385 M³/S E HOJE SE CONTENTAM SOMENTE COM 26M³/S. POR QUÊ?
1R-Inicialmente, a população, os técnicos e os órgãos governamentais desconheciam o assunto e aceitavam tudo, achando que os proponentes do projeto tivessem interesse em resolver a situação do NE. Isso, todavia, já está provado que não é verdade. Propuseram, inicialmente, uma vazão fabulosa de 385 m³/s ou 385 mil litros em cada segundo que, num projeto faraônico, deveria irrigar 600 a 800.000 ha, no NE setentrional com 9 transposições ao todo, transformando-o numa Califórnia brasileira. Além do custo astronômico e do impacto ambiental, só de energia elétrica, na primeira transposição, o projeto iria consumir quase 1/3(mais de 300MW) da totalidade de energia instalada da CHESF (quase 10.000 MW), o que traria um prejuízo incalculável a todo o NE, inclusive o setentrional.
É curioso observar que, se os projetistas quisessem mesmo o desenvolvimento da região, poderiam fazê-lo sem esse projeto absurdo. Desconheceram que no Médio e Sub-médio S.Francisco, dentro do próprio nordeste (Norte de Minas, Bahia e Pernambuco) há mais de 3(três) milhões de ha próprios para a irrigação nas margens do rio.Porque não aproveitar essa dádiva da natureza e promover o progresso? Porque não irrigar as terras que margeiam o rio e, num projeto louco, bombear a água a grandes alturas e levá-la por vales e montanhas, através de caríssimas estações e de bombeamento, obras hidráulicas, longos canais (previstos 2100 km), aquedutos, túneis, instalações elétricas, etc, para irrigar o NE setentrional? Pior, esqueceram ainda que NE, setentrional, naquela época, segundo dados do próprio DNCOS, as águas acumuladas nos açudes existentes e o aproveitamento das águas subterrâneas, dariam para irrigar 530 000 ha. Portanto poderiam transformá-lo também numa Califórnia nordestina, sem o referido projeto. Para que, portanto, o projeto, que queriam dar início de qualquer maneira em 1984? Sinceramente não sabemos e gostaríamos que alguém pudesse nos responder.
Hoje o pensamento é o mesmo, Com 26m³/s, querem convencer a opinião pública que vão salvar o sertanejo da sede, esquecendo-se que, para isso basta aproveitar parte do volume já acumulado nos açudes e as águas subterrâneas existentes. Precisa-se, sim, de adutoras e pequenas obras hidráulicas que não interessam à indústria das secas. Lembre-se que o açude Orós, considerado a retenção do NE e aguardado por décadas, ficou mais de 20 anos esquecido (sem utilização), depois de construído em 1959, provando que o interesse está nas obras e não no essencial, que é seu aproveitamento. Até hoje vivem, nos arredores dos açudes no NE setentrional, como, ao longo do S.Francisco, inúmeras comunidades carentes de água, faltando apenas pequenas adutoras ou pequenos poços para resolver o assunto.
2P – PREVÊ-SE, COM A TRANSPOSIÇÃO, UM MELHOR APROVEITAMENTO DOS AÇUDES, QUE PODERÃO FUNCIONAR COM MENORES VOLUMES E, PORTANTO, MENORES PERDAS POR EVAPORAÇÃO, ESTIMANDO-SE UM GANHO DE 50% NAS PERDAS ATUAIS (SINERGIA HÍDRICA). É ISSO VERDADE OU FANTASIA?
2R - Pura fantasia. Os açudes continuam cheios e, portanto, com sua grande superfície líquida exposta á maior evaporação, exatamente porque não foram construídos para seu conveniente aproveitamento.
Hoje, por exemplo, eles podem irrigar 770 000 ha, mas só regam 120. 000 (16% de sua capacidade). O restante (84%) tem que ficar acumulado para a evaporação. Quando estiverem realmente aproveitados segundo sua capacidade, passarão a ter um volume médio de acumulação menor e a perder menos água por evaporação, independentemente da transposição. Alias, eles foram construídos para isso e em seu projeto ignorava-se a transposição.
Sobre a sinergia hídrica, tão apregoada no projeto, a realidade é exatamente o oposto. As perdas nas águas transpostas serão inevitáveis, prevendo-se, nos 2. 100 km de canais, de cerca de 30 a 50% de seu volume (dentro de um simples projeto de irrigação, as perdas em canais são geralmente superiores a 35%, segundo dados e fontes do governo). Isso sem contar com as inevitáveis retiradas e desperdícios de água comum entre os colonos da região, quando um canal corta suas terras. Quando se irriga dentro do próprio vale as coisas são diferentes. Aí sim, pode-se dizer que há sinergia hídrica. O volume bombeado diretamente dentro da área não tem os 35 a 50% das perdas nas transposições. Além do mais , toda a água perdida na rede de canais, nas irrigações , etc., retornam ao rio, seja por escoamento superficial ou por infiltração, através do lençol freático. Só se perde efetivamente, a água evaporada do solo e a transpirada pela vegetação, ou evapotranspiração. Até a água das chuvas, que antes da irrigação, caía num solo ressequido e seria absorvida e transpirada pela vegetação nativa, é aproveitada quando se irriga. Aí, a água, já encontrando um solo já umedecido, escoa sobre a superfície ou se infiltra, retornando ao rio, em vez de ser evapotranspirada.
O retorno da água de irrigação e da chuva ao rio depende de uma serie de variáveis (sistema de irrigação, eficiência na rega e na condução e distribuição de água, do clima, etc). Pode-se prever, no mínimo, que 50% retornam ao rio. Assim, com a sinergia hídrica de 50% nas áreas irrigadas dentro do vale e a perda mínima de 35 a 50% nas transposições, têm-se, aproximadamente (ordem de grandeza) uma proporção de 1:2 a 1;3 entre um e outro. Isto é, cada ha irrigado pelo faraônico projeto de transposição vai deixar de 2 a 3 ha sem irrigação nas margens do rio.
3P - COM APENAS 26 M³/S DE TRANSPOSIÇÃO, COMO CONSTA NO PROJETO, OS ESTADOS DO NE SETENTRIONAL PODERÃO ACRESCENTAR MAIS DE 186 000 HA DE NOVAS TERRAS AGRICULTÁVEIS E GERAR MAIS DE 200 000 EMPREGOS DIRETOS E INDIRETOS. É VERDADE OU MILAGRE?
3R - Verdadeiro milagre. Os 26m³/s, bombeados do S.Francisco, considerando-se o máximo de funcionamento das bombas (24 horas por dia durante 09 meses seguidos) e de uma perda mínima de 35% na transposição, devia um volume de 395, digamos, 400 milhões de m³ por ano. O volume acima seria suficiente para irrigar 33.000 há, com custo em obras e um gasto de energia altíssimo, que inviabilizaria qualquer irrigação. Qual, realmente, seria o impacto de 400.000.000 m³ por ano sobre os 37 bilhões já acumulados nos açudes? Será que 0,4 bi tem mais peso que os 37 bi? Qualquer remanejamento no uso dos açudes, digamos, passarem de 25 para 30% seu aproveitamento, daria um acréscimo de 1,85 bilhões de m³ sem custo adicional, muito superior ao volume de transposição.
4P-O PROJETO PREVÊ A RETIRADA DE UMA VAZÃO CONSTANTE DE 26M³/S E UM VOLUME SUPERIOR A ESTE, DE ATÉ 127 M³/S, SEMPRE QUE SOBRADINHO ESTIVER CHEIO OU VERTENDO. PARECE SENSATO, NÃO?
4R-Completamente insensato e fora dos padrões de engenharia. Parece um projeto elaborado num manicômio.
Caso se tratasse de um único e simples verte douro que passasse de 26, digamos para 30 ou 40m³/s, por motivo de segurança, seria normal, mas passar todas as obras de transposição, incluindo várias estações de bombeamento, com suas bombas, motores, tubulações, válvulas, obras civis, etc, os canais de condução (2 100 km), obras especiais, aquedutos, túneis, etc, de 26 para 127 m³/s? Todo esse conjunto funcionaria com apenas 26 m³/s e ficaria ocioso aguardando o transbordamento do verte douro de sobradinho, que pode ocorrer talvez de 10 em 10 anos? E o custo e manutenção dessa obra? E a previsão de energia para o 127 m³/s, que ninguém sabe quando vão acontecer? E para onde encaminhar esse grande volume?
Prova dessa loucura é a obsessão dos elaboradores e defensores do projeto para obras e mais obras, sem se incomodar com custos e sua utilização na criação de riqueza.
ALBERTO DAKER
Engenheiro Agrônomo. Professor Titular (aposentado) e Doutor em Hidráulica Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa. Autor de livros e trabalhos em Irrigação e Drenagem, com experiência, como técnico da OEA, em projetos de irrigação em outros países.
E mail: altti@terra.com.br
(Perguntas e Respostas)
Alberto Daker – Novembro 2004
1 – SOBRE O NE SETENTRIONAL E AS OBRAS DO PODER PÚBLICO
1-P - COMO SE PODE TER ÁGUA EM CONDIÇÕES TÃO ADVERSAS COMO NO SERTÃO NORDESTINO?
2 R –Realmente , na região semi-árida do NE a água é escassa, porém, se bem aproveitada dá resultados magníficos, como acontece em regiões congêneres, em várias partes do mundo. Fora a água subterrânea, não se pode descartar a precipitação média anual de 500 mm, que ocorre em toda a região. Isso significa que em cada 1m² cai 500 litros e cada 1 km² 500 milhões de litros ou 500 000 m³ por ano. Só no estado do Ceará (148 000 km²) caem 74 bilhões de m³ por ano e nos 04 estados da região (357 000 km²), 178 bilhões.
Observa-se que todo esse volume cai do céu (chuvas) de graça, por gravidade, enche e é retirada dos açudes também de graça, por gravidade para felicidade da região e tristeza dos que só querem e só pensam em obras.
2-P – O QUE FEZ O PODER PÚBLICO PARA O NE?
2-R-Pequenas intervenções até a criação em 1909, de um órgão permanente de combate ás secas, denominado Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS) e, hoje, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS).
3-P - COMO FOI A ATUAÇÃO DESTE ORGÃO?
3R – Deu prioridade a obras, em detrimento ao aproveitamento dessas obras para a melhoria de vida do sofrido sertanejo e o desenvolvimento da região.
3P - COMO ASSIM?
3R – Desde que foi criado, a prioridade era gastar em obras. Foram construídos mais de 70.000 açudes particulares de pequeno porte e mais de 400 públicos de médio e grande porte, totalizando o armazenamento de um fantástico volume de 37 bilhões de metros cúbicos, superior às barragens de Três Marias (21 bilhões) e de Sobradinho (uma das maiores do mundo, com 34 bilhões de m³ de capacidade).
4P – QUAL A ARÉA QUE PODE IRRIGAR TAL VOLUME?
4R - Segundo dados do próprio DNCOS, SUDENE e de técnicos locais, devido a atual precária utilização, considera-se que somente 25% desse volume sejam aproveitáveis, perdendo-se o restante 75% por evaporação.
Mesmo assim os 25% dos 37 bilhões de m³ armazenados dão um volume aproveitável anual de 9,25 bilhões de m³. Na base de 12000 m³ por hectare e por ano, tal volume pode irrigar uma área de 770 000 há e na base de 70 m³ por habitante por ano (cerca de 200 litros por dia), da para o abastecimento doméstico de 130 milhões de pessoas. Tudo isso sem contar com o aproveitamento da água subterrânea, que em certos locais é abundante.
5P – IRRIGA-SE ESSA ÁREA, NO MOMENTO?
5R – Desgraçadamente, não. Hoje, após quase 100 anos de criação do DNOCS, irriga-se, e de uma maneira precária, com paternalismo e baixa produção, somente 120 000 ha.
Se a irrigação tivesse tido a mesma prioridade das obras, hoje teríamos filhos, netos, bisnetos, etc. dos primeiros colonos, aptos e treinados para a produção agrícola, e gozando de plena cidadania.
6P – QUAIS AS CONSEQUÊNCIAS DESSE DISPARATE?
6R – Desastrosas. Caso as obras, isto é, os açudes fossem feitos para sua finalidade precípua (abastecimento e irrigação) o NE setentrional seria outro hoje. Seriam 770 000 há irrigados, com toda a produção agrícola gerando emprego e riqueza. Na base de 1 lote de 5 há por família , seriam 154000 famílias assentadas, ou uma população (5 pessoas por família ) de 770 000 habitantes, vivendo diretamente da irrigação, fora os empregos indiretos e a riqueza que a produção oferece.Assim o NE setentrional superaria o Chile(180 000 ha irrigados) e Israel( 280 000 ha ), tornando quase uma Califórnia brasileira.
7P – O QUE SE DEVE FAZER AGORA?
7R – Recuperar o tempo perdido ou, pode-se dizer, o crime cometido. Deve-se em primeiro lugar, como salientam os técnicos locais, aproveitar ao máximo, os conhecimentos já adquiridos na agricultura e no gerenciamento dos projetos, melhorar a irrigação existente e implantar os novos projetos com tecnologia avançada e, principalmente, com treinamento dedicação e atenção ao principal agente do desenvolvimento, o sofrido sertanejo local.
8P – O QUE A TRANSPOSIÇÃO DESEJA FAZER?
8R - Exatamente o contrário da resposta anterior. Deseja continuar e ampliar as obras, com gastos mirabolantes e resultados duvidosos, aumentando e garantindo, por décadas e décadas a seguir, um fabuloso lucro para uns poucos, com grande prejuízo para toda a população.
A transposição vai levar mais água aos açudes (mais lenha na fogueira), para aumentar seu volume e suas perdas por evaporação. Não vai milagrosamente aspergir sobre toda a região, fazendo correr água nas torneiras e não vai se espalhar ou implantar novos projetos de irrigação.
2 – SOBRE AS CONTRADIÇOES, FANTASIAS E MILAGRES APREGOADOS PELOS DEFENSORES DO FARAÔNICO PROJETO
1P - OS PROJETITAS DE 1982 PREVIAM UMA VAZÃO DE TRANSPOSIÇÃO DE 385 M³/S E HOJE SE CONTENTAM SOMENTE COM 26M³/S. POR QUÊ?
1R-Inicialmente, a população, os técnicos e os órgãos governamentais desconheciam o assunto e aceitavam tudo, achando que os proponentes do projeto tivessem interesse em resolver a situação do NE. Isso, todavia, já está provado que não é verdade. Propuseram, inicialmente, uma vazão fabulosa de 385 m³/s ou 385 mil litros em cada segundo que, num projeto faraônico, deveria irrigar 600 a 800.000 ha, no NE setentrional com 9 transposições ao todo, transformando-o numa Califórnia brasileira. Além do custo astronômico e do impacto ambiental, só de energia elétrica, na primeira transposição, o projeto iria consumir quase 1/3(mais de 300MW) da totalidade de energia instalada da CHESF (quase 10.000 MW), o que traria um prejuízo incalculável a todo o NE, inclusive o setentrional.
É curioso observar que, se os projetistas quisessem mesmo o desenvolvimento da região, poderiam fazê-lo sem esse projeto absurdo. Desconheceram que no Médio e Sub-médio S.Francisco, dentro do próprio nordeste (Norte de Minas, Bahia e Pernambuco) há mais de 3(três) milhões de ha próprios para a irrigação nas margens do rio.Porque não aproveitar essa dádiva da natureza e promover o progresso? Porque não irrigar as terras que margeiam o rio e, num projeto louco, bombear a água a grandes alturas e levá-la por vales e montanhas, através de caríssimas estações e de bombeamento, obras hidráulicas, longos canais (previstos 2100 km), aquedutos, túneis, instalações elétricas, etc, para irrigar o NE setentrional? Pior, esqueceram ainda que NE, setentrional, naquela época, segundo dados do próprio DNCOS, as águas acumuladas nos açudes existentes e o aproveitamento das águas subterrâneas, dariam para irrigar 530 000 ha. Portanto poderiam transformá-lo também numa Califórnia nordestina, sem o referido projeto. Para que, portanto, o projeto, que queriam dar início de qualquer maneira em 1984? Sinceramente não sabemos e gostaríamos que alguém pudesse nos responder.
Hoje o pensamento é o mesmo, Com 26m³/s, querem convencer a opinião pública que vão salvar o sertanejo da sede, esquecendo-se que, para isso basta aproveitar parte do volume já acumulado nos açudes e as águas subterrâneas existentes. Precisa-se, sim, de adutoras e pequenas obras hidráulicas que não interessam à indústria das secas. Lembre-se que o açude Orós, considerado a retenção do NE e aguardado por décadas, ficou mais de 20 anos esquecido (sem utilização), depois de construído em 1959, provando que o interesse está nas obras e não no essencial, que é seu aproveitamento. Até hoje vivem, nos arredores dos açudes no NE setentrional, como, ao longo do S.Francisco, inúmeras comunidades carentes de água, faltando apenas pequenas adutoras ou pequenos poços para resolver o assunto.
2P – PREVÊ-SE, COM A TRANSPOSIÇÃO, UM MELHOR APROVEITAMENTO DOS AÇUDES, QUE PODERÃO FUNCIONAR COM MENORES VOLUMES E, PORTANTO, MENORES PERDAS POR EVAPORAÇÃO, ESTIMANDO-SE UM GANHO DE 50% NAS PERDAS ATUAIS (SINERGIA HÍDRICA). É ISSO VERDADE OU FANTASIA?
2R - Pura fantasia. Os açudes continuam cheios e, portanto, com sua grande superfície líquida exposta á maior evaporação, exatamente porque não foram construídos para seu conveniente aproveitamento.
Hoje, por exemplo, eles podem irrigar 770 000 ha, mas só regam 120. 000 (16% de sua capacidade). O restante (84%) tem que ficar acumulado para a evaporação. Quando estiverem realmente aproveitados segundo sua capacidade, passarão a ter um volume médio de acumulação menor e a perder menos água por evaporação, independentemente da transposição. Alias, eles foram construídos para isso e em seu projeto ignorava-se a transposição.
Sobre a sinergia hídrica, tão apregoada no projeto, a realidade é exatamente o oposto. As perdas nas águas transpostas serão inevitáveis, prevendo-se, nos 2. 100 km de canais, de cerca de 30 a 50% de seu volume (dentro de um simples projeto de irrigação, as perdas em canais são geralmente superiores a 35%, segundo dados e fontes do governo). Isso sem contar com as inevitáveis retiradas e desperdícios de água comum entre os colonos da região, quando um canal corta suas terras. Quando se irriga dentro do próprio vale as coisas são diferentes. Aí sim, pode-se dizer que há sinergia hídrica. O volume bombeado diretamente dentro da área não tem os 35 a 50% das perdas nas transposições. Além do mais , toda a água perdida na rede de canais, nas irrigações , etc., retornam ao rio, seja por escoamento superficial ou por infiltração, através do lençol freático. Só se perde efetivamente, a água evaporada do solo e a transpirada pela vegetação, ou evapotranspiração. Até a água das chuvas, que antes da irrigação, caía num solo ressequido e seria absorvida e transpirada pela vegetação nativa, é aproveitada quando se irriga. Aí, a água, já encontrando um solo já umedecido, escoa sobre a superfície ou se infiltra, retornando ao rio, em vez de ser evapotranspirada.
O retorno da água de irrigação e da chuva ao rio depende de uma serie de variáveis (sistema de irrigação, eficiência na rega e na condução e distribuição de água, do clima, etc). Pode-se prever, no mínimo, que 50% retornam ao rio. Assim, com a sinergia hídrica de 50% nas áreas irrigadas dentro do vale e a perda mínima de 35 a 50% nas transposições, têm-se, aproximadamente (ordem de grandeza) uma proporção de 1:2 a 1;3 entre um e outro. Isto é, cada ha irrigado pelo faraônico projeto de transposição vai deixar de 2 a 3 ha sem irrigação nas margens do rio.
3P - COM APENAS 26 M³/S DE TRANSPOSIÇÃO, COMO CONSTA NO PROJETO, OS ESTADOS DO NE SETENTRIONAL PODERÃO ACRESCENTAR MAIS DE 186 000 HA DE NOVAS TERRAS AGRICULTÁVEIS E GERAR MAIS DE 200 000 EMPREGOS DIRETOS E INDIRETOS. É VERDADE OU MILAGRE?
3R - Verdadeiro milagre. Os 26m³/s, bombeados do S.Francisco, considerando-se o máximo de funcionamento das bombas (24 horas por dia durante 09 meses seguidos) e de uma perda mínima de 35% na transposição, devia um volume de 395, digamos, 400 milhões de m³ por ano. O volume acima seria suficiente para irrigar 33.000 há, com custo em obras e um gasto de energia altíssimo, que inviabilizaria qualquer irrigação. Qual, realmente, seria o impacto de 400.000.000 m³ por ano sobre os 37 bilhões já acumulados nos açudes? Será que 0,4 bi tem mais peso que os 37 bi? Qualquer remanejamento no uso dos açudes, digamos, passarem de 25 para 30% seu aproveitamento, daria um acréscimo de 1,85 bilhões de m³ sem custo adicional, muito superior ao volume de transposição.
4P-O PROJETO PREVÊ A RETIRADA DE UMA VAZÃO CONSTANTE DE 26M³/S E UM VOLUME SUPERIOR A ESTE, DE ATÉ 127 M³/S, SEMPRE QUE SOBRADINHO ESTIVER CHEIO OU VERTENDO. PARECE SENSATO, NÃO?
4R-Completamente insensato e fora dos padrões de engenharia. Parece um projeto elaborado num manicômio.
Caso se tratasse de um único e simples verte douro que passasse de 26, digamos para 30 ou 40m³/s, por motivo de segurança, seria normal, mas passar todas as obras de transposição, incluindo várias estações de bombeamento, com suas bombas, motores, tubulações, válvulas, obras civis, etc, os canais de condução (2 100 km), obras especiais, aquedutos, túneis, etc, de 26 para 127 m³/s? Todo esse conjunto funcionaria com apenas 26 m³/s e ficaria ocioso aguardando o transbordamento do verte douro de sobradinho, que pode ocorrer talvez de 10 em 10 anos? E o custo e manutenção dessa obra? E a previsão de energia para o 127 m³/s, que ninguém sabe quando vão acontecer? E para onde encaminhar esse grande volume?
Prova dessa loucura é a obsessão dos elaboradores e defensores do projeto para obras e mais obras, sem se incomodar com custos e sua utilização na criação de riqueza.
ALBERTO DAKER
Engenheiro Agrônomo. Professor Titular (aposentado) e Doutor em Hidráulica Agrícola pela Universidade Federal de Viçosa. Autor de livros e trabalhos em Irrigação e Drenagem, com experiência, como técnico da OEA, em projetos de irrigação em outros países.
E mail: altti@terra.com.br
