História dos peixes da bacia do rio das Velhas
Carlos Bernardo Alves, consultor do Projeto Manuelzão
No
século XVIII, iniciaram-se os primeiros estudos sobre a fauna de peixes da
bacia do rio São Francisco. Naquela época eram comuns as expedições de naturalistas
europeus à América do Sul. Em 1792, Johan Julius Walbaum descreveu a primeira
espécie para a bacia, a curimatá-pacu - Prochilodus marggravii = Prochilodus
argenteus (Britski et alii, 1986; Castro, 1990). A partir de então, diversos
outros naturalistas participaram de expedições no São Francisco, ou trabalharam
com peixes coletados na bacia. Entre estes podem ser destacados o Barão de
Cuvier, Louis Agassiz, Achille Valenciennes, Christian F. Lütken, Johan T.
Reinhardt, John D. Haseman e Carl Eigenmann (Britski et alii, 1986).

Richard Burton foi outro naturalista que, em 1869, percorreu a bacia do rio
São Francisco, partindo de Sabará, no rio das Velhas até o Oceano Atlântico.
Durante essa viagem são mencionados os hábitos de pesca e algumas espécies
importantes, entre elas o mandi, surubim, traíra, dourado, matrinchã, corvina
e pirá. A obra deste naturalista foi traduzida para o português e reeditada
recentemente pela Livraria Itatiaia-BH.
Em 1875, Christian F. Lütken escreveu a monografia - Velhas-Flodens Fiske
- baseada nos dados coletados entre 1850 e 1854 por Johan T. Reinhardt. Pode
ser considerada como um marco histórico, pelo fato de descrever novas espécies
da bacia do rio das Velhas. Encontra-se em fase final de revisão a tradução
desta obra, com recursos provenientes da Secretaria de Recursos Hídricos (SRH),
do Ministério do Meio Ambiente e Amazônia Legal (MMA), sob coordenação dos
biólogos Carlos Bernardo Mascarenhas Alves (Coordenador do "Subprojeto S.O.S.
Rio das Velhas") e Paulo dos Santos Pompeu.
O resgate das informações contidas nesta obra, escrita em dinamarquês, e que
está sendo traduzida e divulgada pelo Projeto Manuelzão com a autorização
da Real Acadêmia de Ciências da Dinamarca, constitui oportunidade única de
se realizar estudos comparativos das alterações na composição da ictiofauna
desta área, passados mais de cem anos. Este fato é ainda mais importante considerando-se
o crescimento de grandes cidades na área de drenagem do rio das Velhas, incluindo
Belo Horizonte.
No campo da ictiologia, além de seu valor histórico, o número de espécies
relacionadas no livro é significativo em relação à fauna total de peixes da
bacia do rio São Francisco. "Este fato confere à obra inestimável contribuição
não só aos estudos de taxonomia e sistemática de peixes, como também para
a biodiversidade e conservação de ecossistemas aquáticos", afirma o Prof.
Dr. Naércio Aquino de Menezes (Museu de Zoologia da USP).
Paralelamente, o Projeto Manuelzão, com apoio financeiro do Fundo-Fundep em
1999, iniciou o trabalho de comparação histórica da composição da ictiofauna
na bacia do rio das Velhas, com o objetivo de verificar as possíveis alterações
em função de sua crescente degradação ambiental. Foram registradas, até esta
fase da pesquisa, 94 espécies de peixes na bacia do rio das Velhas. No livro
de Lütken, são relacionadas 54 espécies, das quais pelo menos 13 ainda não
foram coletadas no presente trabalho. Estes resultados farão parte do livro
"Peixes do Rio das Velhas: Passado e Presente", acima mencionado.
No ano de 2001, a continuação dos estudos do Projeto Manuelzão já está garantida
através de financiamento da Fundação O Boticário de Proteção da Natureza.
Serão estudados cinco dos principais afluentes do rio das Velhas (Cipó, Curimataí,
Pardo Grande, Bicudo e da Onça), além da Lagoa Santa. Esta última foi intensamente
estudada por Lütken.
Com o prosseguimento destes estudos espera-se esclarecer os efeitos do desenvolvimento
não sustentável das cidades sobre a ictiofauna, bem como acompanhar o efeito
da implantação das estações de tratamento de esgotos (ETE) do rio Arrudas
e Onça. O peixe seria o bio-indicador utilizado para medir as possíveis alterações
na qualidade da água após seu tratamento primário nas referidas estações e
o posterior desenvolvimento para o nível secundário do tratamento.