Negligência transforma mortandade de peixes no Médio Rio das Velhas em banalidade ambiental
A construção das Etes, o cumprimento rigoroso das leis contra os crimes ambientais e a implantação de programas educativos: 120 mil pessoas esperam por estas medidas.

Antônio Pereira de Carvalho, 81 anos, morador do distrito de Araçás, município de Inimutaba (250 Km de Belo Horizonte), é uma dessas lendas vivas que se confundem com a própria história da região onde nasceu. Antônio de Araçás, como é conhecido, é testemunha ocular da mortandade de peixes que, desde 1979, desafia o Médio Rio das Velhas, coloca em cheque a eficiência dos poderes públicos e mostra, pelo pior caminho, a negligência de empresas, poder público e da sociedade civil para com o meio ambiente. Em entrevista ao Manuelzão, sob um sol escaldante, Antônio de Araçás, que há 50 anos se orgulhava de pescar com facão sua alimentação diária e hoje não passa de um plantador de cana, milho e mandioca. Acanhado nos deixa a seguinte pergunta: quem é que vai nos devolver os nossos surubis, curumatãs, piaus e dourados?

Absurdo

Frente à nostalgia do sábio Antônio de Araçás, porta - voz anônimo das quase 120 mil pessoas que habitam os sete municípios (Santo Hipólito, Curvelo, Inimutaba, Presidente Juscelino, Monjolos, Corinto, Gouveia e Presidente Kubitscheck) que compõem o Médio Rio das Velhas, o que prevalece a olho nu é uma cruel realidade de degradação ambiental do Rio das Velhas. Não é sem razão, que o Instituto Estadual de Florestas (IEF), após criterioso estudo sobre a demanda bioquímica de oxigênio, pH e oxigênio dissolvido na água, chegou à triste conclusão : "nesta região, confirma o biólogo Marcos Antônio Reis Araújo, a mortandade é tão grande que indica a morte definitiva do Rio das Velhas, especialmente no trecho que engloba a Região Metropolitana de Belo Horizonte até próximo ao município de Baldim. Com isso, comenta Araújo, as cidades perdem dinheiro com o fim da comercialização de peixes e com a impossibilidade absoluta do turismo de pesca". Tão grave quanto a perda financeira é a perda da identidade cultural dessas pessoas, motivada pela migração profissional: 80% dos antigos pescadores da região, em sua maioria dono de seus próprios negócios, hoje, são frustados empregados de pequenas propriedades agrícolas.. "Em função da pesca, garante a liderança comunitária de Beltrão (distrito de Corinto), Antônio Carlos de Oliveira, tínhamos toda uma organização social, solidária. Esses laços foram quebrados e dificilmente serão reatados". Nascido e criado em Beltrão, Oliveira ''e um intransigente defensor da volta dos peixes ao Rio das Velhas. Com ele, faz coro a Associação dos Pescadores e Amigos do Rio das Velhas (Asparve), sediada no município de Curvelo. Tanto o presidente desta entidade, Frederico Viana Espeschit como o seu presidente do Conselho Fiscal, Márcio Mascarenhas Diniz, são unânimes em creditar "este absurdo ecológico" a dois fatores básicos: falta de vontade política e deseducação da sociedade. "Essa mortandade de peixes espelha a qualidade da água do Velhas, que é qualidade de nossa mentalidade", denunciam eles.

Ontem e Hoje

Um Velhas navegável em 80% de sua extensão (761 Km), com sua invejável ictiofauna determinando igual qualidade ambiental, não passa de um velho sonho, de cinco há seis décadas. Testemunha dessa época, o fazendeiro Maurílio Ribeiro da Glória, do distrito de Senhora da Glória (Santo Hipólito) se emociona ao exibir um antológico filme, onde aparece ao lado do pai, às margens do Velhas, pescando quase à mão, um belo e suculento surubi: "foi na década de 40. Precisa dizer alguma coisa ? pergunta indignado.

Hoje um grupo de técnicos, representantes da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG (ICB), do Instituto Estadual de Floresta (IEF) e do Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec), coordenado pelo Projeto Manuelzão, está se reunindo periodicamente para estudar as causas da mortandade e montar um documento que será encaminhado às autoridades ambientalistas. "Vamos fazer um monitoramento dos peixes, explica o ecólogo do ICB, Paulo dos Santos Pompeu, e reunir informações que possam subsidiar alguma providência. Só assim, assegura Pompeu, será possível realizar um trabalho profundo e eficiente". Ao lado desse grupo se situa o Programa de Saneamento Ambiental (Prosam), sob coordenação da Secretaria de Estado do Planejamento. É dele a responsabilidade de construir as tão esperadas Estações de Tratamento de Esgoto (Etes) para os ribeirões Arrudas e do Onça, obra orçada em R$ 130 milhões e que segundo seu diretor, o engenheiro ambientalista João Israel Neiva, será responsável, caso seja construído, pelo tratamento de 92% da poluição do Velhas. "Com isso, assegura Neiva, a mortandade deixará de existir".

Ao status do Prosam, como entidade gestora das duas Etes (conclusão prevista para 2001), cuja execução é de responsabilidade da Copasa, sobrepõe uma enxurrada de críticas vindas dos municípios onde a mortandade os atinge mais cruelmente. Estas põem em dúvida a veracidade da construção das estações de tratamento, exatamente pelo não cumprimento de prazo. "Tomara, alertam eles, que o não cumprimento do cronograma não esteja escondendo algo pior". Como diretor do Prosam, Neiva sabe que a execução das Etes ainda depende de um acordo "burocrático" entre a Prefeitura de Belo Horizonte e a Copasa. "Esse acordo, que é a prorrogação da concessão à Copasa do direito de continuar respondendo pelo esgoto na capital, tem que sair o quanto antes. Qualquer atraso adicional será danoso para toda a comunidade ribeirinha do Médio Rio das Velhas", alerta ele.

A mortandade de peixes do Médio Rio das Velhas, que arranca lágrimas de Antônio do Araçás, é a mesma que emociona e gera o filme caseiro do fazendeiro Maurílio Ribeiro da Glória. É a mesma que avilta o " modus vivendi " das comunidades de pescadores; é a mesma que gera dúvidas e que coloca em suspeição as autoridades ambientalistas mineiras.

A pergunta do sábio Antônio de Araçás, que dá início a esta reportagem, continua à espera de uma resposta consciente.

Cronologia da Mortandade

ANO

LOCAL

MUNICÍPIO

1979

Córrego das Pedras

Curvelo

1985

Rio das Velhas

Curvelo

1988

Rio das Velhas

Curvelo

1988

Rio das Velhas

Santo Hipólito

1993

Rio das Velhas

Santo Hipólito

1994

Rio das Velhas

Lassance / Várzea da Palma

1995

Rio das Velhas

Corinto / Sto. Hipólito / Augusto de Lima

1996

Rio das Velhas

Lassance / Corinto

1996

Rio das Velhas

Corinto / Curvelo

1997

Rio das Velhas

Presidente Juscelino / Várzea da Palma

05/06/1998

Rio das Velhas

Santo Hipólito

13/08/1998

Rio das Velhas

Inimutaba / Presidente Juscelino



Fonte: Feam

 

Causas principais da Mortandade

• A atividade das minerações localizadas em suas cabeceiras, que alteram a cor da água e aumenta o nível de sólidos em suspensão, prejudicando a qualidade da água.
  • A poluição pelo despejo de esgotos domésticos não tratados e de lixo especialmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a mais populosa de todo o Estado.
  • A poluição industrial desta mesma região, que traz grandes lucros às empresas e prejuízos ainda maiores ao meio ambiente.
  • O corte das matas ciliares que protegem os rios do assoreamento e que poderiam funcionar como um filtro de produtos tóxicos (fertilizantes, pesticidas, agrotóxicos, etc.) provenientes das atividades agropecuárias.
  • A construção de barragens para aproveitamento hidrelétrico e acumulação para consumo humano pode ser verificado em afluentes do Rio das Velhas e outros locais da bacia do São Francisco.
  • A introdução de espécies exóticas, como as carpas, tilápias e bagre africano, que vieram de outros países, e o trairão, tucunaré, pacu - caranha, tambaqui, pescada -do- piauí e apaiari, vindos de outras bacias brasileiras. Estas espécies trazem novas doenças e parasitas, além de prejudicarem as espécies nativas através da competição por alimento, por locais de desova e de crescimento de alevinos, ou mesmo, pela predação de ovos, larvas, jovens e adultos das espécies naturais dos rios
  • A retirada indiscriminada de água para projetos de irrigação e o aterro de várzeas, áreas alagáveis e lagoas marginas, importantes locais de desova e procriação para as espécies de peixes.
  • Fonte: ICB

     

    César Augusto Estanislau, gerente do IEF em Sete Lagoas, fazendo medida de oxigênio dissolvido na água do Velhas, no município de Santa Rita do Cedro.


    Repercussão



    Maurílio Ribeiro da Glória,
    Fazendeiro do distrito de Nossa Senhora da Glória, Município de Santo Hipólito.

    "As autoridades precisam tomar providências urgentes".

     





    Márcio Mascarenha, do Conselho Fiscal da Asparve.

    " Mortandade se evita com a educação das pessoas. Infelizmente é um problema para as futuras gerações".






    Antônio Pereira de Carvalho
    , pescador e morador de Araçás, distrito de Inimutaba.

    "É triste ver os peixes morrerem por falta de juízo dos homens".




    José Maria Penna Silva, secretário municipal de Saúde de Curvelo.

    "A origem da mortandade está nos afluentes do Velhas, na Grande BH. Ou se toma providência agora ou tudo estará perdido".

     



    Antônio Carlos de Oliveira,
    liderança comunitária de Beltrão, distrito de Corinto.

    "Falta de respeito a natureza está acabando com os peixes. A situação é insuportáve".




    Frederico Viana Espeschit, presidente da Associação dos Pescadores Amigos do Rio das Velhas.

    "Já fizemos de tudo para evitar esse crime ecológico. Ninguém faz nada".

     

     

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