PRESERVAR,
CONSERVAR, RENATURALIZAR
Especialista alemão mostra que é possível recuperar
rios e córregos impactados
A
ocupação das terras pelo homem sempre foi norteada pela presença dos rios
e córregos. A água que eles forneceram foi indispensável neste processo, já
que oferecia transporte, energia, abastecimento e irrigação para a organização
dos agrupamentos humanos. No entanto, o crescimento "desordenado " fez com
que, mais tarde, os rios se tornassem entraves à constante necessidade de
avanço territorial.
Durante muito tempo, a estratégia adotada pelas engenharias hidráulica e fluvial
consistia em regularizar o curso de rios e córregos para que seu trajeto se
tornasse o mais curto possível. Estas modificações eram feitas para ganhar
novas terras e diminuir os efeitos locais das cheias.
A realização destas obras causou impactos ambientais não considerados no planejamento.
Rompeu-se a interação natural entre rio e baixada e isso ocasionou grande
empobrecimento do ecossistema. A variedade de vida animal e vegetal foi reduzida
e as cheias hoje causam prejuízos cada vez maiores A velocidade da corrente
aumenta, causando erosão e assoreamento, o que exige obras complexas para
manter o rio retificado. Além disso, os rios retificados e canalizados têm
seu processo de renovação natural muito prejudicado.
Atualmente, existe uma consciência muito maior do homem na sua relação com
o meio-ambiente. Diante dos impactos causados por séculos de ocupação "desordenada"
e do risco de esgotamento de alguns recursos naturais, surgem novas alternativas
para um desenvolvimento que considere as alterações ambientais.
É nesse contexto que aparecem estratégias dirigidas à renaturalização de rios
e córregos. O consultor alemão Walter Binder, do Departamento Estadual de
Recursos Hídricos da Baviera, apresenta essas possibilidades em seu estudo.
O desafio é recuperar os cursos d'agua que sofreram modificações profundas
sem colocar em risco as zonas urbanas e vias de transporte, e sem causar desvantagem
para a população. Para isso, os engenheiros envolvidos devem elaborar um plano
que leve em conta as particularidades de cada caso, e que se articule aos
demais planos territoriais e programas regionais. Na Alemanha, por exemplo,
o plano de renaturalização de rios foi implantado considerando os planejamentos
de urbanização e paisagismo, os programas de proteção do ecossistema e o plano
diretor de agricultura existente.
Também deve ocorrer, desde o início, a participação efetiva das pessoas envolvidas.
Associações de pescadores ou de agricultores das baixadas afetadas, por exemplo,
precisam ser informadas e consultadas antes que as modificações sejam realizadas.
É indispensável obter a compreensão e a aceitação da população ribeirinha.
A elaboração de um plano como este exige profissionais que tenham conhecimento
dos novos conceitos de engenharia hidráulica e planejamento territorial. Só
assim é possível implantar corretamente todas as etapas de renaturalização.
Em zonas urbanas, torna-se mais difícil a recuperação dos rios. É nas cidades
que eles sofrem as alterações mais profundas, havendo grande comprometimento
das relações biológicas. Nestes casos as possibilidades de uma revalorização
ecológica são limitadas, mas existem, sim, formas de diminuir o impacto ambiental.
Muitas vezes, essas melhorias também favorecem as condições de vida da população
ribeirinha, como no caso da criação de parques municipais nas margens recuperadas.
Outra vantagem da renaturalização é a economia. De acordo com Binder, os custos
para manter a evolução natural do rio são pequenos em comparação aos de obras
hidráulicas tradicionais e de manutenção.
Na Europa o interesse e a expectativa da população quanto à renaturalização
de rios e córregos são imensos, mas a descrença dos proprietários das terras
afetadas ainda persiste. A conscientização de engenheiros hidráulicos foi
um processo bastante demorado, mas hoje a engenharia ambiental faz parte do
currículo da formação de profissionais ligados a recursos hídricos.
Enquanto na Europa já começa a se estabelecer esta consciência quanto à remoção
de canais, os rios brasileiros passam por uma intensa canalização. No Brasil,
ainda existe a crença de que rio canalizado significa avanço, progresso. De
acordo com Edézio Teixeira de Carvalho, geólogo, outro fator que caracteriza
os rios europeus é que eles chegaram a um ponto de poluição que programas
como os de renaturalização tornaram-se urgentes. Ele não tem conhecimento
de nenhum rio ou córrego brasileiro que tenha passado por esse processo, mas
acredita que num futuro próximo isso poderá acontecer. "O Brasil tem o costume
de copiar bons exemplos com 30 anos de atraso", diz ele, "acredito que estas
medidas de renaturalização podem ser adotadas, sim, em nosso país."
Flávia
Mantovani
(Estudante de Comunicação
Social da UFMG)