Opinião
Johannesburgo

Apolo Heringer Lisboa*

África do Sul, Johannesburgo, setembro de 2002, o encontro chamado RIO+10 confirmou o papel mundial importante do Brasil nas questões ambientais. Em 1992 sediamos no Rio de Janeiro o maior fórum ambiental de todos os tempos, cujas decisões envolvendo mais de cem chefes de Estado, colocaram os países ricos na defensiva, frente ao clamor da sociedade mundial contra a poluição e a devastação de um desenvolvimento sem sustentabilidade ambiental e social. Agora o Brasil fez a proposta mais interessante do encontro, embora perdendo na votação para o grupo liderado pelos EEUU e países árabes da Opep (petróleo), propondo que até 2010, 10% da energia utilizada na Terra fosse de fontes renováveis, isto é, energia solar, eólica (ventos), geotérmica e marinha, com suas múltiplas formas.

Depois da reunião de 1992 no Rio o consumo de combustíveis fósseis (petróleo, carvão de pedra e gás) aumentou, e desde 1950 aumentou 4 vezes. Daí a importância da proposta brasileira, que foi apoiada por diversos países europeus ricos e de todos os continentes, além do generalizado aplauso dos movimentos sociais ali presentes. Mais uma vez o presidente G.W.Bush foi o pivô de discórdias ao manter seu veto ao protocolo de Kyoto, que procura controlar e diminuir a emissão de gases na atmosfera para deter o aquecimento global do planeta, um dos fatores mais importantes que está causando o derretimento de geleiras e neves das montanhas, e provocando inundações.

Até o Vaticano, normalmente calado quando se trata de criticar os países ricos do mundo, não suportou a arrogância dos EEUU e, através de um porta-voz criticou o unilateralismo da política dos EEUU, perguntou quais os valores ocidentais que estão defendendo, denunciou os exageros no uso da violência e os desrespeitos aos direitos humanos cometidos em nome da suposta luta contra o terrorismo, manifestou temores pela conduta desequilibrada de uma superpotência com liderança mundial, sua ausência da cúpula da Terra de Johannesburgo e a negativa em colaborar e mesmo liderar causas ambientais como a definida pelas nações no protocolo de Kyoto.

A delegação brasileira foi presidida pelo presidente Fernando Henrique, o que valorizou a posição de liderança do Brasil, mas o êxito brasileiro se deve ao mineiro, funcionário do IEF, José Carlos Carvalho, competente técnico e ambientalista, cuja visão sobre as questões do meio ambiente e energia em implementá-las sempre mereceram o apoio do Projeto Manuelzão.

Aliás, o Projeto Manuelzão não pôde participar desta cúpula da Terra, pois as despesas são elevadas, e talvez ainda não tenha chegado o momento de nossa participação, com destaque, nos maiores fóruns internacionais. Mas chegaremos lá, pois o Projeto está se fortalecendo em conteúdo e ações, e o reconhecimento ao nosso trabalho e publicações está crescendo em todo o Brasil e em alguns países, como EEUU e Alemanha. Nós estamos trabalhando intensamente na construção dos comitês Manuelzão, nas articulações interinstitucionais, nas pesquisas, no ensino e na extensão e nas outras atividades do Projeto, para trazer de fato os peixes e as matas de volta à bacia do Rio das Velhas e contribuir para o gerenciamento e gestão com visão ambiental da bacia hidrográfica e de suas águas, resistindo aos grupos utilitaristas com visão meramente extrativista das águas e demais recursos naturais e sociais, cujos negócios não têm sustentabilidade ambiental e social.

A bacia hidrográfica precisa ser viva, com rios vivos, com peixes e nascentes, com matas e fauna, e não uma mera bacia mecânica sem nascentes, desmatada, com barragens assoreadas, sendo administradas como um mero caixão d´água, por técnicos em distribuição de água.

*Coordenador do Projeto Manuelzão

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