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Pesquisa

Canículas e nevascas

Edézio Teixeira de Carvalho, Engenheiro Geólogo
Geocentelha 299
Belo Horizonte, 10/02/10

Acontece em São Paulo (46 dias de chuva seguidos) o inverso de que aconteceu em Furquim aí por 1956 na mesma altura do calendário. Vila das mais antigas de Minas, com pároco novo, de Rio Espera, sofria com o famoso veranico havia mais de 30 dias, surpreendentemente começado antes do início do ano novo, acho que mesmo antes do natal. A festa de São Sebastião (20/01) passou a ser o evento oportuno para um pedido especial ao santo, de um pouquinho de chuva pelo menos. Pela madrugada a banda, anunciada pelo dobre dos sinos, tocou a costumeira alvorada. Nuvens de algodão acinzentado começaram a subir lá da direção certa e o povo ficou animado. O santo não foi inteiramente insensível diante dos devotos com a infalível Folhinha de Mariana nas mãos, prevendo “tempo vário com chuvas ocasionais”, e algumas gotas caíram durante a procissão marcada para as duas da tarde e iniciada sob sol inclemente em sinal de penitência. Ainda bem criança, contei uma média de 5 gotas por metro quadrado, cada uma disputada aos empurrões discretos por todos os devotos. O veranico ainda durou uns 10 dias, mas Furquim sobreviveu com recorde invertido antecedente ao de São Paulo. (As procissões de Furquim sempre foram um evento com ocorrências às vezes inusitadas; numa delas, que não presenciei, disseram que um enxame de abelhas atacou os devotos e houve a debandada, mas os que levavam o andor, ainda bem que um só, e não aqueles 10 ou 15 do dia primeiro de janeiro, resistiram estoicamente e não deixaram que o andor caísse).

A simetria do tempo aqui alegoricamente apresentada tem deixado perdida a imprensa. Notaram que até dois anos atrás as notícias de calor extremo terminavam com comentários sobre aquecimento global, que não eram simetricamente reproduzidos, com comentários de resfriamento global, quando noticiadas nevascas extremas na Sibéria e China? Agora, sem falarem no aquecimento, percebo que alguns noticiários insistem em colocar que a onda de calor de janeiro no Rio encontra-se com temperaturas em média 10 graus mais altas que o normal, o que me surpreende, porque muito antes de ir ao Rio, sempre soube que a marca térmica da cidade no verão nunca deixou de bater nos 40 graus, como ocorre atualmente e que é meu recorde em Baixo Guandu – ES, 1969. A propósito senti falta de comentários sobre a nevasca de Washington, segundo dizem a maior dos últimos 90 anos. Parece faltar neve no Canadá, para os jogos Olímpicos de Inverno, mas sobra na Alemanha e na Ucrânia (notemos, Europa Central, e não a dos países atingidos diretamente pela corrente do Golfo). Parece que aqueles senhores notáveis do IPCC terão de fazer ajustes em seus modelos matemáticos de chegar para a inclusão do que hoje está de fora. Num determinado momento surgirá um Arquimedes sozinho, sem modelos matemáticos, mas com modelos naturais na cabeça e poderá dar um avanço qualitativo de fato na compreensão da questão.