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Pesquisa

Código Florestal divisor {-O Tempo; O.PINIÃO; 10/02/2010; p. 19. Obs.: A palavra “pastos”, no último parágrafo, por ser mais adequada ao contexto, está substituindo a palavra “taludes”, constante da versão publicada.-}

Edézio Teixeira de Carvalho, Engenheiro Geólogo
Geocentelha 298

Discute-se a revisão do Código Florestal. O atual é lamentável. Carente de fundamentação técnica, sua discussão vai para o campo ideológico, o que não é ruim em si, mas pelo fato de deixar obscurecida essa fundamentação.

Sou contra pastos de pisoteio até a declividade de 100%. Essa permissividade é absurda, porque já nos 40% o poder cisalhante da pata do boi rasga capim e solo saturado. Ao fim de anos o boi pisa trilhas planas em ziguezagues, caminho das águas que descem da encosta íngreme, compactadas, impermeáveis, favoráveis ao escoamento e desperdício de água; em encostas mais íngremes, elas ocupam quase metade do terreno. Compreendo a lógica de produtores ao justificarem usar pastos degradados em altas declividades, dizendo que assim aproveitam a única coisa que a terra dá. Essa lógica tem fraqueza escondida: só gado ruim, de baixos preço e desfrute, pode ser posto aí.  Eu diria a esse produtor: Use gado melhor em menor número em áreas menos íngremes; plante arbóreas e culturas perenes sem excessivo trato de enxadas nas áreas entre 50 e 100% de declividade. A terra agradecerá e você ficará mais rico ou menos pobre. O Código infinitamente permissivo é o mesmo que tem proibições absurdas. O Cruzeiro jogou contra o Potosi a 4.100 metros. Sete países andinos e mais de 30 mundiais urbanizam acima de 3.000m; no Brasil temos a APP acima dos 1.800m.

Com o atual Código Florestal, sofre todo o leste cristalino mineiro. Não citarei muitas cidades que têm sofrido tanto com seus rios. Agora temos São Luís do Paraitinga, em São Paulo a juntar-se a Ponte Nova, Carangola, Caratinga, Teófilo Otoni, Muriaé na lista de suas vítimas. A quem duvide, parta da cidade e tome o rio para montante navegando pelo Google Earth para ver como suas vertentes se encontram desmatadas em estimáveis 90%. Não basta que aqueles solos sejam espessos e tenham lugar para a água, porque as vertentes como estão repelem a água como alguns tecidos de veludo. Tem o Brasil a ingênua crença de que leis de gestão territorial funcionam automaticamente. Eu acreditaria um pouco mais se elas buscassem numa lógica simples e perceptível suas fundações. A geometria do Código Florestal admite a criação de gado a 100%, mas proíbe a bananeira naturalmente irrigada à beira de um córrego. Essa geometria imposta a uma terra tão diversa, dispensando prescrições técnicas locais, como se na saúde pudéssemos dispensar o médico, é o maior desrespeito contra a terra no Brasil. Peço que não se esqueçam.

A propósito, com ou sem lei, quando é que os governos cuidarão das voçorocas de Cachoeira do Campo, daqueles pastos ralados em carne viva ao lado da residência do IBAMA em Governador Valadares e quando o IBAMA começará a coletar as águas pluviais de seus edifícios para dar bons exemplos a São Paulo e Belo Horizonte? Que a futura versão crie e permita pelo menos a pesquisa experimental. Não é pedir demais.