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Pesquisa

Concreto, parque ou mata ciliar?

 

Área do Programa de Recuperação das Matas Ciliares em Sabará é cortada por engano

 

Pâmilla Vilas Boas
Estudante de Comunicação Social da UFMG

 

Concreto, asfalto, canalização, parques lineares, mata ciliar. Qual a melhor forma de preservar um rio que vive dentro de uma área urbanizada?  Quando o poder público se mobiliza para tentar recuperar essas áreas há divergências e diferentes percepções sobre o conceito de preservação ambiental. Na semana passada, o Boulevard de Sabará, projeto de recuperação urbanística, paisagística e ambiental, decidiu gramar o entorno do rio Sabará destruindo parte da mata ciliar que estava sendo formada pelo Programa de Recuperação das Matas Ciliares da bacia do Rio das Velhas. O Programa é desenvolvido pelo Departamento de Botânica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, em parceria com o Projeto Manuelzão, Ministério do Meio Ambiente e Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Inserido na Meta 2010,  o Programa tem como objetivo recuperar os pontos com mata ciliar mais degradada do Rio das Velhas. Foram escolhidos para recuperação os sete pontos mais poluídos do rio Sabará. Segundo a professora do ICB e coordenadora do Programa, Maria Rita Muzzi, a escolha dos locais foi feita em parceria com a Prefeitura de Sabará que indicou alguns locais.  Para a recuperação da área, o Programa tentou reconstituir a mata ciliar que tem importante função para a despoluição do rio, com a diminuição do volume das enchentes e criação de um ecossistema para fazer a transição entre o ambiente aquático e terrestre.

Quando o Programa já estava tendo bons resultados a prefeitura de Sabará com o Projeto para a criação do Boulevard roçou a área para gramar o entorno do rio. Em dois anos de recuperação as plantas já atingiam dois metros de altura e a matéria orgânica estava sendo incorporada ao solo. Segundo Maria Rita, a prefeitura não comunicou nada ao Programa de Recuperação das Matas Ciliares da bacia do Rio das Velhas.  “Além de cortar as árvores, retiraram o tapete da floresta. O que a natureza demora um ano para fazer, eles destruíram em instantes. Retiraram a questão central da mata ciliar que é o solo. A matéria orgânica é o ponto crucial para a retenção de sedimento e infiltração da água”, explica. Maria Rita conta que foi preciso desenvolver tecnologias e pesquisas para otimizar o processo de recuperação do solo e da mata ciliar. Foram utilizados matéria orgânica especial, introdução de microorganismos para acelerar o processo, com um custo de cerca de 10 mil reais. Outro problema, segundo a pesquisadora, é que a criação dessa floresta ciliar era uma espécie de modelo para a recuperação de áreas degradadas e estava sendo acompanhada por pesquisadores. Ou seja, além de atrasar a recuperação da área, atrapalhou as pesquisas em desenvolvimento.

Divergências   

Hiram Firmino, coordenador do Projeto Boulevard, explica que o objetivo é fazer uma recuperação urbanística, ambiental e paisagística e que, por isso, tiveram a idéia de gramar as áreas que estavam cobertas por mato e entulho.  “A primeira fase do projeto foi roçar o mato para enxergar a cara do rio. Na visão da comunidade esse mato significa que a prefeitura não cuida”, explica. Segundo o coordenador, a prefeitura apenas passou a roçadeira para cortar o mato baixo e que nenhuma árvore foi cortada.  Porém, o morador de Sabará e técnico ambiental, Wesley Magalhães conta que as árvores não foram catalogadas e que, por isso, quem estava cortando não sabia o que deveria ser mantido. “Eu fui lá e briguei com eles por que estavam fazendo o manejo errado e várias árvores foram cortadas. O rio está morrendo e precisa de mata ciliar preservada, projeto paisagístico é nas praças da cidade e não no lugar da mata ciliar”, defende o morador. Para a professora Maria Rita a mata ciliar não pode ser substituída por grama comercial, já que ela funciona como um tapete que impermeabiliza o solo e impede a infiltração da água.   

Para Rogério Sepúlveda presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica  do Rio das Velhas, houve um problema de comunicação entre os projetos. Ele avalia que nessa discussão é possível perceber a diferença cultural e de entendimento entre a posição da Maria Rita e da prefeitura com relação à preservação do rio.  Para Rogério, a proposta da Maria Rita é muito sofisticada e não foi bem compreendido pela prefeitura nem pela comunidade. Por isso, a solução seria conciliar o Programa com a criação do Boulevard. “Não dá para por mata ciliar em volta do rio inteiro como na floresta Amazônica, temos que encontrar uma forma de vincular as pessoas ao rio. O desafio é achar esse bom termo: o quanto pode ter de mata ciliar, o quanto pode ter de parque, o quanto pode ter de trilha e concreto”, explica Rogério.