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Enchentes em centros urbanos

Belo Horizonte não está se preparando para prevenir enchentes

Artigo de Marcus Vinicius Polignano, coordenador geral do Projeto Manuelzão

Belo Horizonte, novembro de 2009

Enchente no ribeirão Arrudas em 2003 (Foto: acervo Projeto Manuelzão)
Enchente no ribeirão Arrudas em 2003 (Foto: acervo Projeto Manuelzão)
Estamos assistindo, neste mês, ao mesmo que ocorreu no final de 2008: enchentes em vários pontos de Belo Horizonte, em especial na região do Ribeirão Arrudas. As enchentes fazem parte do ciclo das águas e rios. As tragédias, não necessariamente.

Se olharmos em direção à Serra do Curral, podemos perceber claramente que Belo Horizonte foi assentada num fundo de vale, incrustada num relevo montanhoso. Pela própria conformação geográfica, a tendência natural é de escoamento das águas para os fundos de vales, como os córregos que fluem para o Ribeirão Arrudas.

Ocorre que, ao longo de sua história, Belo Horizonte, ao invés de inserir os cursos d´água no seu cenário, procurou fazer um traçado perpendicular aos mesmos e adotou sistematicamente a prática da canalização.

Ao mesmo tempo, outros processos contribuíram para agravar as conseqüências das enchentes na cidade. Erosão, ocupação desordenada do solo de fundo dos vales, manejo inadequado do solo e de microbacias hidrográficas, desmatamento. E também impermeabilização, ocupação inadequada das encostas, baixa capacidade de infiltração das águas pluviais, canais assoreados devido à grande quantidade de sedimentos e de lixo doméstico.

As causas são sistêmicas e têm a ver com o território de bacia hidrográfica. As enchentes que ocorrem em pontos do Ribeirão Arrudas estão relacionadas com o que ocorre nas suas cabeceiras, nos córregos que são seus afluentes. Com a ocupação desordenada e ausência de solo permeável, que funciona como uma esponja que segura a água, o volume de água que volta para o rio aumenta muito, e o risco de acontecer uma enchente “desastrosa” é muito grande.

A manutenção do modelo de canalização de córregos agrava o problema. Nós transformamos córregos e rios em avenidas e depois nos espantamos quando as avenidas e ruas se transformam em córregos. Belo Horizonte não vem tratando sistemicamente o problema. A construção de piscinões ou aprofundamento do leito do rio são medidas paliativas, que tiram o foco da discussão das verdadeiras causas do problema. É preciso acabar com a indústria das enchentes que propõe investimentos e obras faraônicas que não resolvem os problemas. A história da cidade demonstra isso. Quando aumentaram a caixa de concreto do Ribeirão Arrudas na década de 1980, afirmaram que não teríamos mais enchentes.

É necessário que o modelo de gestão das águas de Belo Horizonte seja revisto: proibindo-se novas canalizações; fazendo “descanalizações” para que os cursos d´água possam correr livres no seu leito natural, como já ocorre em países da Europa; aumentar a permeabilidade do solo; rever a lei de uso e ocupação do solo para garantir a preservação das cabeceiras dos cursos do d´água; aumentar as áreas verdes em pontos estratégicos na cidade; “descimentar” fundos de quintais de áreas públicas, dentre outras. Não podemos dominar a natureza, mas podemos aprender como conviver com ela e evitar os danos e tragédias.