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Linha Verde

Trechos de texto elaborado por Rogério Sepúlveda sob a orientação de Apolo Heringer Lisboa, coordenador do Projeto Manuelzão.

Belo Horizonte, 2005

A atuação do Projeto Manuelzão tem como eixo principal a recuperação da bacia do Rio das Velhas através de ações articuladas com os atores sociais e de uma proposta de mudança ampla da consciência e do comportamento da sociedade visando um desenvolvimento sustentável ambiental, político, social e cultural. Nosso território de ação engloba tanto o meio rural, com todas as suas diversidades, quanto as cidades com todas as suas contradições e problemas sócio-ambientais. Nossa prioridade atual foi traduzida na Meta 2010: Navegar, pescar e nadar no Rio das Velhas na região metropolitana de Belo Horizonte que se tornou meta do atual Governo Estadual. Esta é a região mais populosa, industrializada e de maior impacto negativo em toda a bacia hidrográfica do Rio São Francisco.

O projeto viário "Linha Verde" proposto para ligar com mais rapidez Belo Horizonte ao Aeroporto de Confins e incrementar o desenvolvimento econômico, as exportações, facilitar o acesso a convenções, turismo, comércio, que são importantes na ótica do governo do Estado de Minas. A sociedade, embora percebendo os pontos positivos da proposta, se indaga sobre os prováveis impactos negativos e não compreende o grau de prioridade desta obra se comparada com a construção do METRÔ, que se arrasta há anos, e que bem poderia chegar até Confins, ou próximo de lá.

Por se tratar de obra de significativo impacto na RMBH e também na área cárstica (região calcária com grutas e rios subterrâneos), julgamos pertinente chamar a atenção para alguns desdobramentos da Linha Verde:

-  A enchente do Arrudas ocorrida em 1987 mostrou que as obras de ampliação de seu canal no trecho central da Capital - obras de custo elevado - não solucionaram o problema das inundações. Os projetos da "Linha Verde" e do "Boulevard Arrudas" nada acrescentam à solução deste problema. Em caso de ocorrência de enchente similar à de 1987, estas obras poderão ter seus elementos estruturais e paisagísticos, como jardins, fontes e passeios danificados.

-  Para o Projeto Manuelzão a decisão mais apropriada e ambientalmente sustentável para as águas urbanas passa pelo abandono da antiga política de retificação e canalização dos cursos d'água como única solução e pela adoção de outras soluções que retenham as águas das chuvas nas regiões altas da bacia hidrográfica do Ribeirão Arrudas: barragens de retenção, adoção de pisos permeáveis, sobretudo em ruas, quintais, estacionamentos, pátios de fábricas e condomínios podem ser citados. Cabe lembrar que a RMBH continua em processo de adensamento e expansão urbana ampliando suas áreas impermeabilizadas.

 -  Além disso, é imprescindível a retirada de todos esgotos que são lançados no Arrudas, tanto pelo mau cheiro, que seria incoerente com uma proposta de "Boulevard", espaço público que tradicionalmente é caracterizado como local agradável e aprazível, como pela necessidade de melhorar a qualidade das águas do Rio das Velhas, rio no qual o Arrudas despeja suas águas poluídas.

-  Os córregos que ainda se encontram em leito natural na RMBH - e não são poucos - podem ser objeto de intervenções que procurem manter suas características naturais promovendo a retirada dos esgotos e respectiva urbanização que permita uma melhoria na qualidade de vida dos habitantes desses locais, conjugando aquelas soluções de retenção e infiltração de águas pluviais citadas.

-  Nessa mesma ótica, propomos que seja dada maior prioridade aos Programas Drenurbs da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte e ao "Caça Esgoto" da Copasa. A implementação mais rápida desses programas e sua ampliação para outros municípios da RMBH, no caso do Arrudas, Contagem e Sabará, combinadas a uma priorização efetiva desses programas contribuirão enormemente para a META 2010. Esta contribuição poderá também gerar benefícios sociais às populações que vivem em vilas e favelas urbanas e àqueles ribeirinhos e comunidades das margens do Rio das Velhas que ainda não podem utilizar suas águas devido ao elevado grau de poluentes presentes.

-  Um outro impacto positivo esperado pela implementação da "Linha Verde" é de criar uma onda de desenvolvimento ao longo do eixo norte da RMBH, com geração de oportunidades e de novos empregos. Entretanto, os impactos negativos oriundos desse desenvolvimento merecem estudos e planejamento mais aprofundados. Preocupa-nos a gestão sustentável, principalmente da ocupação da área cárstica, sensível à expansão urbana desordenada. Essa região merece uma ordenação urbana especial com visão de bacia hidrográfica e conservação dos seus ecossistemas que possa principalmente proteger a áreas de recarga dos seus aqüíferos subterrâneos e seu acervo histórico arqueológico.

 -  A recuperação das águas e rios pretendida pela Meta 2010, ação que realmente tem a ver com impactos positivos no meio ambiente, vai possibilitar um eixo de desenvolvimento para toda essa região - desenvolvimento gerado pela recuperação hidro-ambiental do Rio das Velhas. Transporte, pesca, lazer e turismo, saúde, irrigação, contenção de cheias e prevenção de tragédias ambientais são algumas das múltiplas possibilidades de desenvolvimento que a Meta permitirá.